A Ditadura Militar instituída em 28 de Maio de 1926 deu origem, volvidos escassa
meia dúzia de anos, ao Estado Novo idealizado e gerido por Salazar. Afastado
este do poder, por doença incapacitante, a chefia do governo é entregue a Marcello
Caetano, que, entre outros problemas por resolver, herda uma guerra colonial
em três frentes, sem solução militar á vista nem vontade política de optar por
uma solução política negociada. Cansados da guerra, os militares profissionais
encetam movimentações de carácter corporativo que rapidamente se transformaram
em reivindicações políticas, acabando por encarar como única saída o derrube
do regime pela força.
Será o Movimento das Forças Armadas (MFA) que irá desencadear uma revolta militar
em grande escala, conseguido derrubar o regime sem o emprego da força e sem
causar vítimas. Depois de uma tentativa frustrada, protagonizada pelo Regimento
de Infantaria das Caldas da Rainha, em 16 de Março de 1974, o processo revolucionário
acelera.Na noite de 24 para 25 de Abril, duas estações de radiofusão lançam
para o ar duas canções que irão adquirir um simbolismo particular (E Depois
do Adeus, interpretada por Paulo Carvalho, que soa como uma despedida do governo
marcelista, e Grândola, Vila Morena, interpretada pelo poeta banido José Afonso,
um conhecido opositor do regime, canção esta que transporta uma mensagem de
conteúdo democrático ao evocar a vilazinha de Grândola, onde “povo é quem mais
ordena”), desencadeando as operações militares, superiormente coordenadas pelo
Major Otelo Saraiva de Carvalho. Em perfeita coordenação, elementos envolvidos
na conspiração tomam conta das respectivas unidades, formam colunas de voluntários,
convergem para os grandes centros e ocupam todos os pontos estratégicos do país,
colocando as forças fiéis ao governo em posição de desvantagem e na defensiva.
Sem disparar um tiro, cobrem praticamente todo o país.
Dois momentos de tensão apenas se registam naquela primeira fase, ambos em Lisboa,
ambos protagonizados por um jovem Capitão de Cavalaria, Salgueiro Maia – um
encontro com um destacamento de blindados obediente ao Governo, que por pouco
não redunda em acção de fogo, mas que se resolve quando as tropas envolvidas
se colocam ás ordens de Salgueiro Maia; outro, horas mais tarde, quando mesmo
oficial manda abrir fogo sobre a parede exterior do quartel da GNR no Carmo,
como forma de “persuadir” Marcello Caetano, lá refugiado, a reder-se. O chefe
do Governo acaba por se render ao General António de Spínola, com medo de que
o poder “caísse na rua”, e a tensão desce.
Só um incidente irá manchar os acontecimentos: agentes da DGS, barricados na
sua sede, abrem fogo sobre manifestantes, causando alguns mortos e feridos.
Apesar da sua brutalidade, não passa de um acto de desespero, não sendo sequer
um acto de defesa do regime. Tal como a Monarquia em 5 de Outubro de 1910 e
a República em 28 de Maio de 1926, um regime cai por não ter já quem o defenda
e queira dar a vida por ele.
Algumas horas após a transmissão de poderes de Marcello Caetano para as mãos
de Spínola, constitui-se um órgão governativo provisório, com representação
de todos os ramos das Forças Armadas (a Junta de Salvação Nacional; os militares
subalternos que acabavam de fazer triunfar a revolução do “Movimento dos Capitães”,
em nome do respeito pelas hierarquias, entregavam o poder nas mãos de Oficiais
Generais.
Nos meses que se irão seguir, o país assiste a uma movimentação febril sem precedentes:
constituem-se partidos das mais diversas orientações, fazem-se e desfazem-se
alianças, manifesta-se a força das organizações sindicais, floresce uma variadíssima
imprensa livre, a vida social sofre transformações de um extremo e inesperado
radicalismo; estabelecem-se relações diplomáticas como todos os países do globo;
procede-se á descolonização por via negocial) mas também se vive o perigo dos
golpes militares de orientações diversas, surge o terrorismo como método político
e o país chega a sentir-se ameaçado pela guerra civil, até que, nos finais de
1975, se alcança uma situação que permite caminhar para a estabilização de um
sistema político democrático.
Nestes meses de vida política e social agitada, alguns acontecimentos marcantes
assinalam as viragens sucessivas de evolução política: a manifestação próspinolista
da “maioria silenciosa” de 28 de Setembro de 1974, que conduz á renúncia de
Spínola; o golpe militar spinolista de 11 de Março de 1975, travado por um contragolpe,
que dá início a uma fase de grande tensão (o “Verão quente” ou PREC), e por
fim o golpe militar lançado por forças esquerdistas em 25 de Novembro de 1975,
prontamente anulado por um contra-golpe que instala no poder forças políticas
que irão proporcionar a consolidação da democracia parlamentar.
GRÂNDOLA VILA MORENA
Grândola Vila Morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti ó cidade
Dentro de ti ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola Vila Morena
Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola Vila Morena
Terra da fraternidade
Terra da fraternidade
Grândola Vila Morena
Em cada rosto igualde
O povo é quem mais ordena
Á sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter como companheira
Grândola a tua vontade
Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
Á sombra da azinheira
Que já não sabia a idade
José Afonso (Zeca Afonso)
CRONOLOGIA DO 25 DE ABRIL
22 de Fevereiro
Publicação do livro Portugal e o Futuro do General António de Spínola, em que
este defende que a solução para a guerra colonial deverá ser política e não
militar.
5 de Março
Nova reunião da Comissão Coordenadora do NFA. É lido e decidido pôr a circular
no seio do Movimento dos Capitães o primeiro documento do Movimento contra o
regime e a Guerra Colonial: intitulava-se “Os Militares, as Forças Armadas e
a Nação” e foi elaborado por Melo Antones.
14 de Março
O Governo demite os Generais Spínola e Costa Gomes dos cargos de Chefe e Vice-Chefe
de Estado Maior General das Forças Armadas, alegando falta de comparência na
cerimónia de solidariedade com o regime, levada a cabo pelos três ramos das
Forças Armadas. Essa cerimónia de solidariedade será ironicamente baptizada
nos meios ligados á oposição ao regime como “Brigada do Reumático” nome pelo
qual ainda hoje é muitas vezes referenciada. A demissão dos dois Generais virá
a ser determinante na aceleração das operações militares contra o regime.
16 de Março
Tentativa de golpe militar contra o regime. Só o Regimento de Infantaria 5 das
Caldas da Rainha marcha sobre Lisboa. O golpe falhou. São presos cerca de 200
militares.
24 de Março
Última reunião clandestina da Comissão Coordenadora do MFA, na qual foi decidido
o derrube do regime e o golpe militar.
23 de Abril
Otelo Saraiva de Carvalho entrega, a capitães mensageiros, sobrescritos fechados
contendo as instruções para as acções a desencadear na noite de 24 para 25 e
um exmplar do jornal a Época, como identificação, destinada ás unidades participantes.
24 de Abril
O jornal República, em breve notícia, chama a atenção dos seus leitores para
a emissão do program Limite dessa noite, na rádio Renascença.
24 de Abril – 22:00 horas
Otelo Saraiva de Carvalho e outros cinco oficiais ligados ao MFA já estão no
Regimento de Engenharia 1 na Pontinha onde, desde a véspera, fora clandestinamente
preparado o Posto de Comando do Movimento. Será ele a comandar as operações
militares contra o regime.
24 de Abril – 22:55 horas
A transmissão da canção “E depois do Adeus”, interpretada por Paulo Carvalho,
aos microfones dos Emissores Associados de Lisboa, marca o início das operações
militares contra o regime.
25 de Abril – 00:20 horas
A transmissão da canção “Grândola Vila Morena” de José Afonso, no programa Limite
da Rádio Renascença, é a senha escolhida pelo MFA, como sinal confirmativo de
que as operações militares estão em marcha e são irreversíveis.
25 de Abril – das 00:30 ás 16:00 horas
Ocupação de pontos estratégicos considerados fundamentais (RTP, Emissora Nacional,
Rádio Clube Português, Aeroporto de Lisboa, Quartel General, Estado maior do
Exército, Ministério do Exército, Banco de Portugal e Marconi).
Primeiro Comunicado do MFA difundido pelo rádio Clube Português Forças da Escola
Prática de Cavalaria de Santarém estacionam no Terreiro do Paço.
As forças paramilitares leais ao regime começam a render-se: a Legião Portuguesa
é a primeira.
Desde a primeira hora o povo vem para a rua para expressar a sua alegria.
Início do cerco ao Quartel do Carmo, chefiado por Salgueiro Maia, entre milhares
de pessoas que apoiavam os militares revoltosos. Dentro do Quartel estão refugiados
Marcelo Caetano e mais dois ministros do seu Gabinete.
25 de Abril – 16:30 horas
Expirado o prazo inicial para a rendição anunciado por megafone pelo Capitão
Salgueiro Maia, e após algumas diligências feitas por mediadores civis, Marcello
Caetano faz saber que está disposto a render-se e pede a comparência no Quartel
do Carmo de um oficial do MFA de patente não inferior a Coronel.
25 de abril – 17:45 horas
Spínola, mandatado pelo MFA entra no Quartel do Carmo para negociar a rendição
do Governo.
O Quartel no Carmo hasteia a bandeira branca.
25 de Abril – 19:30 horas
Rendição de Marcelo Caetano. A chaimite BULA entra no Quartel para retirar o
ex-presidente do Conselho e os ministros que o acompanhavam, levando-os, á guarda
do MFA para o Posto de Comando do Movimento no Quartel da Pontinha.
25 de Abril – 20:00 horas
Disparos de elementos da PIDE/DGS sobre manisfestantes que começavam a afluir
á sede daquela polícia na Rua António Cardoso, fazem quatro mortos e 45 feridos.
26 de Abril
A PIDE/DGS rende-se após conversa telefónica entre General Spínola e Silva Pais
director daquela corporação. Apresentação da Junta de Salvação Nacional ao país,
perante as câmaras da RTP.
Por ordem do MFA, Marcelo Caetano, Américo Tomás, César Moreira Baptista e outros
elementos afectados ao antigo regime, são enviados para a Madeira.
O General Spínola é designado Presidente da República.
Libertação dos presos políticos de Caxias e Peniche.
27 de Abril
Apresentação do Programa do Movimento das Forças Armadas.
29 a 30 de Abril
Regresso dos lideres do Partido Socialista (Mário Soares) e do Partido Comunista
Português (Álvaro Cunhal).
1 de Maio
Manisfestação do 1º de Maio, em Lisboa, congrega cerca de 500.000 pessoas.
Outras grandes manifestações decorreram nas principais cidades do país.
4 de Maio
O MRPP organiza a primeira manifestação de boicote ao embarque de soldados para
as colónias. A Junta de Salvação Nacional previra a necessidade de envio de
alguns batalhões de militares para substituirem a tropa portuguesa ainda em
território africano e cujo príodo de mobilização já terminara. Pensava-se também
que seria importante manter as Forças Armadas Portuguesas em África até ao final
das negociações com os Movimentos de Libertação Africanos, com vista á independência
dos territórios.
16 de Maio
Tomada a posse do 1º Governo Provisório, presidido por Adelino da Palma Carlos.
Do 1º Governo fazem parte, entre outros, Mário Soares, Álvaro Cunhal e Sá Carneiro.
20 de Maio
Américo Tomás e Marcelo Caetano, com o conhecimento da JSN mas não do Governo,
partem para o exílio no Brasil.
25 de Maio
Início das conversações com o PAIGC.
26 de Maio
É fixado o primeiro Salário Mínino Nacional em 3300$00.
Maio / Junho
Grandes conflitos laborais e lutas de trabalhadores começam a surgir em algumas
das grandes empresas portuguesas LISNAVE, TIMEX, CTT.
Inicia-se um grande movimento popular de ocupações de casas desabitadas que
vai prolongar-se por vários meses.
A Junta de Salvação Nacional legaliza, em 19 de Maio, as ocupações verificadas
e proíbe novas ocupações.
6 de Junho
Conversações preliminares com FRELIMO, em Lusaka, com vista á independência
de Moçambique.
8 de Julho
É criado o COPCON, chefiado por Otelo Saraiva de Carvalho.
9 de Julho
O Primeiro Ministro Palma Carlos pede a demissão do cargo por alegadamente não
ter condições políticas para governar numa clara alusão ao peso da influência
do MFA. Com ele solidarizam-se alguns ministros do seu gabinete entre eles Francisco
Sá Carneiro.
12 de Julho
Vasco Gonçalves é indigitado por Spínola para o cargo de Primeiro Ministro.
18 de Julho
Tomada de posse do 2º Governo Provisório, presidido por um homem do MFA, o General
Vasco Gonçalves.
27 de Julho
Spínola reconhece o direito á independência das colónias africanas .
Julho / Agosto
Greves da MABOR, TAP, SOGANTAL, e JORNAL DO COMÉRCIO.
8 de Agosto
Motim de ex-agentes da PIDE/DGS presos na Penitenciária de Lisboa.
28 de Agosto
Promulgação da Lei da Greve.
6 de Setembro
Acordos de Lusaka entre a FRELIMO e o Governo Português.
7 de Setembro
Tentativa de tomada de poder pelas forças neo-colonialistas em Lourenço Marques.
9 de Setembro
O Governo Português reconhece a Guiné-Bissau como país independente.
30 de Setembro
Apresentação da demissão do Presidente da República General António Spínola
e nomeação do Gneral Costa Gomes.
Tomda de posse do 3º Governo Provisório, chefiado por Vasco Gonçalves.
6 de Outubro
“Um dia detrabalho para a Nação” proposto pelo Primeiro Ministro. Um domingo
é transformado em dia útil de trabalho oferecido gratuitamente pelos trabalhadores
ao país. A adesão é significativa e o resultado financeiro desta campanha será
dias mais tarde estimado pelas entidades oficiais competentesem cerca de 13000
contos.
11 de Novembro
O Ministro da Educação e Cultura institui o Serviço Cívico Estudantil, ano vestibular
antes da entrada definitiva no ensino superior e que mobilizou milhares estudantes
para brigadas de alfabetização e de educação sanitária junto das populações.
7 de Dezembro
Por decisão do Governo é decidido o pagamento do 13º mês aos pensionistas do
Estado.
9 de Dezembro
Tem início o renceamento eleitoral com vista á realização das primeiras eleições
em liberdade.
MOVIMENTO DAS FORÇAS ARMADAS (MFA)
O nascimento do Movimento dos Capitães encontra-se ligado á publicação dos Decretos-Leis
n.os 353, de 13 de Julho de 1973, e 409 de 20 de Agosto do mesmo ano, por meio
dos quais se pretendia resolver o problema da falta de oficiais com que o Exército
se debatia perante a continuação da Guerra Colonial. Contudo, a evolução do
Movimento não deve ser entendida apenas numa perspectiva corporativista, já
que a contestação ao Governo não abrandou com a suspensão dos dois diplomas.
Pelo contrário, as reuniões destes militares continuaram e o movimento politizou-se.
A recusa de Marcello Caetano em aceitar uma solução política para a guerra levou
a que os oficiais de nível intermédio, que suportavam realmente o combate no
teatro de operações, percebessem que o fim do conflito passava pelo derrube
do regime do Estado Novo. Os Capitães sabiam ser este também o sentimento geral
da população. Sabiam ainda, após a publicação do livro de Spínola Portugal e
o Futuro (Fevereiro 1974), que podiam contar com o apoio dos seus chefes militares.
Assim, o Movimento dos Capitães começou a consolidar ligações e canais de divulgação
de informação dentro dos quartéis (na metrópole e nas colónias). Foi eleita
uma Comissão Coordenadora, que passou a liderar todo o processo de contestação.
Em Novembro de 1973, o Movimento explica que, além das reivindicações corporativas,
estavam em causa outros objectivos, como o fim da Guerra Colonial e o restabelecimento
da democracia. Em Dezembro foi eleito um Secretariado Executivo constituído
por Vasco Lourenço, Otelo Saraiva de Carvalho e Vítor Alves, e foram formadas
as várias comissões que iniciaram o processo de preparação de um golpe militar.
A 5 de Março de 1974, o Movimento dos Capitães passou a designar-se Movimento
das Forças Armadas e foram aprovadas as suas bases programáticas, que constam
de documentos distribuídos nos quartéis, O Movimento, as Forças Armadas e a
Nação. O programa iria depois sintetizar-se em três palavralemas: democratizar,
descolonizar e desenvolver.
O ensaio geral para o derrube do regime deu-se a 16 de Março de 1974, quando
o Regimento de Infantaria 5 das Caldas da Rainha tentou um golpr militar. Devido
á falta de coordenação com outros sectores do movimento, a iniciativa não teve
sucesso.
A conspiração que finalmente derrubou o Estado Novo envolveu cerca de 300 oficiais
das Forças Armadas e desenvolveu-se em menos de um ano. O golpe foi marcado
para a semana de 20 a 27 de Abril de 1974. Acabou por ter lugar a 25, com Otelo
Saraiva de Carvalho como principal comandante das operações. O regime caiu sem
ter quase quem o defendesse.
Depois da revolução, o MFA sofreu várias transformações de estrutura. Primeiro
através da Comissão Coordenadora, depois do Conselho dos Vinte, mais tarde ainda
pelas Assembleias do MFA e finalmnte pelo Conselho da revolução, coube-lhe desempenhar
o papel principal na recomposição das hierarquias das Forças Armadas Portuguesas
até 1982.
ANTÓNIO DE SPÍNOLA
António Sebastião Ribeiro de Spínola nasceu em 1910. oficial da arma de Cavalaria,
ostenta na sua folha de serviço a participação, como voluntário, nas forças
expedicionárias enviadas por salazar para Angola nos primeiros dias de Guerra
Colonial e o exercício do cargo de governador da guiné durante cerca de seis
anos (1968-1973). Neste cargo, deveu o seu largo prestigío a uma política de
respeito pela individualidade das etnias guineenses e á associação das autoridades
tradicionais á administração, ao mesmo tempo que prosseguia a guerra por todos
os meios ao seu dispor, que iam da diplomacia secreta (encontros com Senghor,
Presidente do Senegal) a incursões armadas em territórios vizinhos (ataque de
comandos a Conacri). Após o termo do seu mandato de governador e comandante-chefe,
regressa a portugal e é nomeado cice-chefe do Estado Maior General das Forças
Armadas.
É no exercício deste cargo que entra em choque com Marcello Caetano. O pretexto
para a ruptura é a publicação de um livro em que Spínola propõe soluções políticas
e não militares para o termo da guerra, dentro de uma estrutura federalista
que substituiria o Império. Demitido (juntamente com Francisco da Costa Gomes,
que, na qualidade de Chefe do Estado-Maior, autorizada a publicação do livro)
por Caetano, Spínola regressa a uma posição de grande destaque após o 25 de
Abril de 1974, quando o Movimento das Forças Armadas (MFA), vitorioso, entrega
o poder á Junta de Salvação nacional. Spínola acululará as funções de presidente
da Junta e de presidente da República durante alguns meses. No entanto, rapidamente
entrerá em choque com as correntes mais radicais do Movimento, que o empurram
para a aceitação da independência das colónias, lhe anulam o projecto de concentração
de poderes e lhe impõem como Primeiro Ministro um militar esquerdista, Vasco
Gonçalves. Bloqueado recorre á mobilização das forças políticas da chamada “maioria
silenciosa” temerosa da radicalização da revolução e da possível instauração
de uma ditadura em Portugal. Impotente perante os acontecimentos, Spínola renuncia
ao cargo (30 de Setembro), sendo substituído por Costa Gomes.
MARCELLO CAETANO
De seu nome completo Marcello José das Neves Alves Caetano (1906-1980), foi
reputado especialista de Direito, jornalista e político. Produziu uma obra vasta
de investigação no domínio do direito administrativo, do direito constitucional
e da história do Direito de Portugal, para além do Direito corporativo, o que
aliás se casava intimamente com as suas responsabilidades e opções políticas.
É, de resto, autor do Projecto de Código Administrativo de 1936, e o primeiro
docente universitário a leccionar Direito corporativo em universidades portuguesas.
De facto, tendo-se iniciado na política como seguidor do Integralismo Lusitano,
aderiu ao Estado Novo criado por Salazar e ocupou numerosos cargos de alata
responsabilidade, a nível partidário (presidente da Comissão Executica da União
Nacional), na direcção dos organismos miliciais do regime (Comissário Nacional
da Mocidade Portuguesa), em estruturas essenciais das forças de apoio político
ao regime (procurador, vice-presidente e presidente da Câmara Corporativa) e
ainda a nível governamental (foi Ministro das Colónias e Ministro da Presidência).
O seu relacionamento com Salazar nem sempre foi pacífico, mas tal não obstou
a que fosse reconhecido como seu mais provável sucessor na chefia do Governo.
Ascendeu á chefia do governo, mas por escolha do Presidente da República, Almirante
Américo Thomaz, após se verificar a incapacidade de Salazar para continuar no
exercício de funções. Entre 1968 e 1974, procura construir uma política de “evolução
na continuidade”, concedendo alguma abertura política á oposição que iria dar
origem ao 25 de Abril de 1974, após o qual foi autorizado a seguir para o exílio,
no Brasil, onde se dedicou á docência e revelou, em livros de carácter memorialístico,
o seu grande azedume perante a evolução dos acontecimentos em portugal.
JUNTA DE SALVAÇÂO NACIONAL
Órgão de governo provisório instituído em Abril de 1974 pelo Movimento das Forças
Armadas no momento da vitória. Constituiam-no sete oficiais superiores e generais
dos três ramos das Forças Armadas: António de Spínola, Francisco da Costa Gomes
e Silvério Marques, do Exército; Pinheiro de Azevedo e Rosa Coutinho, da Armada;
Galvão de Melo e Diogo Neto, da Força Aérea. A sua missão seria a de implementar
o Programa do MFA, que naquela mesma data era publicamente anunciado, e que
se poderia sintetizar na consquista de três Ds: Desenvolvimento, Democratização
e Descolonização.
A 1 de março de 1975 a Junta de Salvação Nacional é extinta, sendo substituída
pelo Conselho da Revolução, que assume todas as funções e poderes do órgão extinto
mas tem uma composição política diferente.
OTELO SARAIVA DE CARVALHO
Militar e lider político português, Otelo Nuno Romão Saraiva de Carvalho nasceu
em 1936, em Lourenço Marques (actual Maputo).
Membro do chamado Movimento de Capitães, foi considerado o estratega do movimento
que derrubou o regime de Marcello Caetano, em 25 de Abril de 1974. nos meses
seguintes, passou de capitão a general graduado, e foi nomeado comandante da
Região Militar de Lisboa. Após a revolução dos cravos, foi nomeado comandante
do Comando Operacional do Continente, o COPCON, e integrou o Conselho da Revolução
em Março de 1975, assumindo o poder de facto a partir de Julho do mesmo ano.
A 25 de Novembro de 1975, deu-se um novo golpe militar no país, que poria termo
ao processo revolucionário iniciado com o derrube da ditadura. Otelo foi alvo
de acusações políticas de vária ordem, nomeadamente de ter pactuado com os sectores
revolucionários, facto que determinou o seu regresso á patente que antes tinha
e o seu afastamento da área do poder.
Foi candidato á Presidência da república em 1976 e 1980 pela extrema-esquerda,
tendo, da primeira destas duas tentativas, somado uma percentagem relativamente
significativa de votos. Líder do partido Frente de Unidade Popular, depois,
e envolvido, num grau e numa qualidade que a Justiça se encarregou de averiguar,
na organização terrorista Forças Populares 25 de Abril (mais conhecidas como
FP-25), foi submetido a um longo e complexo processo judicial.
SALGUEIRO MAIA
Fernando José Salgueiro Maia nasceu em castelo de Vide em 1944 e morreu no Hospital
Militar de Belém (Lisboa) em 1992.
Depois de frequentar a Academia Militar e a Escola Prática de Cavalaria, desempenhou
funções de Alferes-Comando em Moçambique, durante a Guerra Colonial.
Já com o posto de Capitão, na madrugada de 25 de Abril de 1974, dirigiu as tropas
revoluvionárias de Santarém até Lisboa, tornando-se uma das figuras-chave do
golpe. Tomou os Ministros do Terreno do Paço e o Quartel da Guarda nacional
Republicana, no Carmo, onde estava refugiado o chefe do Governo, Marcello Caetano,
que se lhe rendeu. Assim se deu a queda do Estado Novo.
A revolta militar foi desencadeada pelo Movimento das Forças Armadas (MFA),
que derrubou o regim praticamente sem o emprego da força e sem provocar vítimas.
Os dois únicos momentos de tensão foram protagonizados pelo próprio Salgueiro
Maia. O primeiro foi o encontro com um destacamento de blindados até então obediente
ao Governo, resolvido quando estas tropas tomaram posição ao lado dos revoltosos.
O outro quando o capitão mandou abrir fogo sobre a parede exterior do quartel
da GNR.
Retomando modestamente o rumo da sua carreira militar, o capitão Salgueiro Maia
recusou as honrarias que o regime democrático lhes quis atribuir. Todos os anos
é recordada a sua coragem e a sua determinação aquando das comemorações do 25
de Abril.
Última vez actualizada em 05-04-2004 @ 03:51 pm
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