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Entrevista: Karim Aïnouz (Madame Satã)

 
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MensagemColocada: Seg Out 04, 2004 20:02    Assunto: Entrevista: Karim Aïnouz (Madame Satã) Responder com Citação

Entrevista: Karim Aïnouz (Madame Satã)



Madame Satã é um mito inexplorado da cultura brasileira, uma maravilhosa síntese de Josephine Baker, Saci Pererê, Jean Genet e Robin Hood dos Trópicos. Com o filme, tentei construir o retrato de um personagem explosivo e complexo, um personagem apaixonado, febril, guiado por uma imperiosa paixão pela vida.
Através de uma trama ágil e emocionalmente densa, eu quis revelar o cotidiano de João Francisco e de sua “família”, habitantes da "República da Lapa." Esses personagens viveram no início dos anos 30 em um mundo às margens do Brasil oficial, um universo à parte, com suas próprias leis, códigos e rituais, um universo do qual João Francisco foi rei e rainha, santo (a) e satanás.
Uma das minhas intenções foi captar, através de uma intimidade cinematográfica, o entusiasmo e as contradições da experiência de um malandro, negro e homossexual no Brasil do começo do século. Não pretendi uma abordagem biográfica. O meu desejo foi construir diferentes histórias imaginárias dos vários personagens vividos e criados por João Francisco e daqueles que viveram à sua volta, em um momento crucial de sua vida.
O filme foi inteiramente rodado em locações na Lapa e seus arredores. Como um filme que se passa predominante nos anos 30, o figurino e a direção de arte são fiéis à época retratada. Porém, essa fidelidade se manifesta não por uma reprodução minuciosa mas pela sugestão visual de um universo emocional. Um dos meus intuitos foi registrar o calor, a brilhantina, a gordura, o suor e o odor, características fundamentais para a representação do Rio de Janeiro no começo do século.
O luxo, a pobreza, a violência, o lúdico e o trágico convivem em Madame Satã como elementos de um mesmo caleidoscópio. A capacidade de João Francisco em transformar as condições mais adversas em momentos singulares de prazer – estratégia de resistência política e cultural tipicamente brasileira – é a marca registrada do filme.



Nascido no Ceará, 36 anos, Karim Aïnouz é formado em arquitectura e urbanismo pela Universidade de Brasília. Tem mestrado em história do cinema pela Universidade de Nova Iorque, se especializando em teoria cultural pelo programa de estudos independentes do Whitney Museum of American Art.
As seas curtas Paixão Nacional e O Preso e seu documentário Seams foram consideradas inovadoras, sendo exibidas em mais de 50 festivais no Brasil e no exterior, incluindo: Rotterdam, Oberhausen, Londres, MoMa (NY), Vancouver, e Altanta. Ganhou, entre outros, o Prémio de Melhor Curta-Metragem em Atlanta (1994), Melhor Curta-Metragem no Festival Ann Arbour - Michigan (1997), uma bolsa do New York State Council on the Arts e do Jerome Foundation for the Arts. Aïnouz foi também convidado como artista residente pelo centro de mídias do New York Film Video Arts e pelo Banff Centre for the Arts (Canadá).



Aïnouz trabalhou como assistente de montagem e direção em vários longas, entre os quais: Poison (Haynes, 90), Swoon (Kalin, 91) e Postcards from America (McLean, 93). Foi também um dos co-roteiristas de Abril Despedaçado, de Walter Salles.
Madame Satã é seu primeiro longa-metragem.



Filmografia
2002 Madame Satã, 35mm, cor, 105 min.
2000 Rifa-me, 35 mm, cor, 28 min.
1998 Les Ballons des Bairros, documentário para a France 3, vídeo, 26 min.
1996 Hic Habitat Felicitas, 35mm, cor, 26 min.
1994 Paixão Nacional, 16mm, cor, 9 min.
1993 Seams, documentário, 16mm, cor, 29 min.
1992 O Preso, vídeo, cor, 19 min.



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ENTREVISTA: KARIM AÏNOUZ


Por que você elegeu Madame Satã como tema / personagem da sua primeira longa-metragem?


Talvez o aspecto que mais me interessava no personagem era a questão da exclusão. Ao longo de sua vida, ele sempre foi um excluído por múltiplas razões. E o curioso foi a sua forma de reagir: através da raiva, da criatividade, da violência, da doçura. Diferente da Macabéa de A Hora da Estrela, que sucumbe à exclusão, João Francisco era um guerreiro que estava sempre se afirmando e nunca se deixou abater. Este testemunho de resistência num país onde a exclusão persiste como norma foi o que mais me atraiu neste personagem.

E como você descobriu João Francisco/Madame Satã?

No início dos anos 90, li uma pequena biografia sobre o Madame Satã, da coleção Encanto Radical, escrita pelo Rogério Durst. Achei fascinante e me deu vontade de saber mais. Vi que ele poderia ser um grande personagem para um filme. Com um prémio da Holanda para desenvolvimento de roteiro, realizei uma intensa pesquisa - vasculhei o arquivo nacional, fontes jurídicas, entrevistei pessoas que o conheceram na Lapa e na Ilha Grande, onde ficou preso. Fui também à cidade em que nasceu no agreste de Pernambuco - e ninguém sabia dele - e ao cemitério onde dizia que estava o túmulo da mãe dele. A MPB dos anos 20 e 30 também foi uma fonte importante para entender a época - parece que a música Mulato Bamba, de Noel Rosa, foi feita para ele. Depois de muito tempo de pesquisa, percebi que João Francisco - ou Madame Satã - era um mitômano. E construía invenções e reinvenções em torno de si mesmo, o que o transformou em um mito.

E para você, quem é afinal esse personagem tão mítico que reinou absoluto por várias décadas como ícone da malandragem carioca?

Levando em conta a sua origem - filho de escravos recém libertados e a sua época - os anos 30, essa capacidade contínua de se reinventar é justamente um dos pontos mais interessantes e fascinantes do personagem. Ele contava, por exemplo, que brigava com oito policiais ao mesmo tempo, que pulava do terceiro andar da delegacia, entre muitos outros lances mirabolantes. Me interessava olhar as filigranas por trás desse mito, como era o seu cotidiano, a maneira como ele dançava, comia, vivia, transava, andava na rua. Minha opção foi tentar construir uma crônica íntima do cotidiano do personagem. Eu não queria falar do mito nem do que aconteceu depois, mas da pessoa pré-mito. Do João Francisco que não sabia que ia ser mito nem que entraria para a história da cidade como Madame Satã.



Madame Satã teve uma vida muito atribulada - viveu 74 anos, passou 27 anos na prisão. Por que a escolha de suas experiências durante os anos 30 ?


Porque achei que foi naquele momento onde se apresentou um duplo rito de passagem para o personagem: ele se firmava como estrela, realizava o sonho de ser amado no palco, e logo depois cometia um delito grave, se transformando em criminoso. E esses dois fatos culminam na criação de Madame Satã, nome que sintetiza toda a dualidade do personagem: Madame - feminino, sofisticado, delicado, importado da França, e Satã, masculino, violento, destrutivo. Não me interessava contar como ele nasceu, explicá-lo. Eu queria colar no personagem no momento anterior à criação do mito, compartilhar sua intimidade.

Por que o enfoque na intimidade?


Madame Satã é um filme de personagem. Além disso, o que me interessa em cinema é falar da intimidade, que é a melhor maneira de construir o retrato de uma pessoa. No caso, a intimidade do pré-mito. Não passava pela cabeça de João Francisco que ele seria um mito. Acho que passava coisas bem objetivas: como sobreviver, sustentar a família, realizar os sonhos dele. Às vezes, acho que errei no título - embora Madame Satã seja muito preciso ao definir os dois lados do personagem - vejo o filme como uma crônica de costumes. Naquela vila da Lapa, as pessoas lavam, passam, cozinham, cuidam das crianças. E, apesar da aparente normalidade, representam vários papéis: Laurita é mãe e prostituta, João é um pai e um tirano, Tabu é covarde e corajosa. Eles subvertem estereótipos e adotam uma estratégia de sobrevivência: não são maniqueístas ou unidimensionais e sim dinâmicos e contraditórios.



Um ponto comum a filmes inspirados por personagens reais está no questionamento da fidelidade (ao personagem). Em que medida Madame Satã é fiel à biografia de João Francisco dos Santos?


Durante muito tempo fiquei na dúvida se deveria fazer um documentário ou uma ficção. Percebi que como ele se reinventa o tempo inteiro, era impossível documentá-lo. Assim, nada melhor do que a ficção para falar da sua capacidade de invenção, do seu caráter de camaleão. Depois de seguir muitas pistas contraditórias, percebi que tentar ser fiel a uma única idéia sobre João Francisco seria uma camisa de força. E não seria fiel ao personagem se abrisse mão de uma liberdade que ele sempre defendeu. Nunca tive o intuito de “contar a verdade.” A interpretação e a tradução do personagem me pareceram mais instigantes. Não vejo como contar a verdade sobre um personagem tão mentiroso. Mas sentia necessidade, sim, em ser absolutamente verdadeiro na maneira como eu lia, percebia e via o personagem.

Pobre, preto, homossexual. Como você quis abordar esse homem triplamente estigmatizado?


Desestigmatizando. No seu cotidiano, João Francisco implodia essas definições. Começando pela questão homossexual. Este nunca foi um problema para ele e, portanto, não poderia ser um conflito do personagem, no sentido narrativo - era mais um dado a seu respeito. O que mais me interessava era pensar nas razões que o levaram a desafiar qualquer possibilidade de guetificar, segmentar, de atomizar uma identidade, de excluir. Seria uma pena se o personagem fosse lido através dessas segmentações - porque é o contrário de toda a experiência dele e também o contrário do que o filme se propõe. Em nenhum momento a questão racial, sexual ou de classe é a questão central do filme.

E qual seria a questão central?


Eu diria que é mostrar como alguém sem possibilidade de sonhar realizou seu sonho. De como alguém que foi trocado na infância por um animal reinventou e escolheu a família - na vida real criou sete crianças. A questão é como essa pessoa atuou sobre o seu desejo e fez da sua vida um exercício de liberdade. Apesar de todo mundo lhe dizer que ele não podia isso ou aquilo, apesar de todo mundo querer botá-lo sempre no seu lugar - de pobre, de preto, de homossexual, de analfabeto - ele sempre se transportava e criava um outro lugar para si mesmo. A questão é também a de uma pessoa que viveu e entendeu seu tempo de forma verdadeira. Isto é mais importante e emocionante do que rotulá-lo como isso ou aquilo.


Um personagem como Madame Satã poderia ser facilmente folclorizado ou estereotipado. Que cuidados você tomou para evitar esses riscos?


Uma coisa que sempre gostei no personagem é que ele criava curtos-circuitos nas definições: quando diziam que era preto aparecia como viado, quando diziam que era viado aparecia como pobre - era sempre outra coisa. E, através dessas reinvenções constantes, ele encontrava a possibilidade de transgredir e resistir. É um personagem emblemático do Brasil no sentido de que, apesar de tudo, ele conseguia encontrar prazer no cotidiano. Além de exercitar a liberdade, encontrar prazer e realizar o seu sonho, ele sempre se afirmou como ser humano. É um testemunho bacana de resistência. É um exercício de liberdade não passivo. Fico surpreso de como não há uma guerra declarada no país. Para ele, a guerra pela sua afirmação nunca foi surda ou silenciosa. Ele nunca aceitou ser tratado de uma forma melhor ou pior porque era pobre ou preto ou porque era x, y ou z.



Que riscos você quis evitar na construção deste personagem ícone da boemia e da marginalidade carioca?

De cara, eu não queria construir um personagem folclórico, estereotipado. Quando você folcloriza, você se distancia, trivializa, banaliza. Isso não me interessava e sim realizar um filme que fosse uma experiência dentro da sua intimidade, no seu cotidiano, na sua raiva, na sua doçura. Tampouco queria fazer um filme épico porque o personagem é multifacetado, não queria torná-lo um herói distante. Também não queria um filme biográfico, porque de um modo geral, no cinema, as “biografias” são lineares, e a experiência dele não é linear. Optei por fazer um recorte da vida do personagem e desenhá-lo verticalmente. Para não empobrecer uma experiência tão exuberante e plural.

Mesmo fugindo das definições, hoje ele ainda seria visto como um excluído social. Você acha que as circunstâncias que excluíam João Francisco persistem?

Sem dúvida. Infelizmente, muitos problemas da década de 30 persistem e uma das maneiras de falar do contemporâneo é lembrar a história. Durante a pesquisa, encontrei uma foto de 1928 de uma mulher negra, com filhos, sentada em uma calçada no centro da cidade. A foto poderia ter sido tirada agora. Muita coisa mudou de lá para cá, mas muita coisa não mudou, e a exclusão social é uma delas. Há uma falta de porosidade na sociedade brasileira e, embora exista uma aparência de integração entre vários setores, o abismo social parece sempre aumentar. Não sou uma pessoa pessimista, pelo contrário. Acho o filme otimista, redentor. Afinal de contas o João Francisco nunca se colocou como vítima.

É curioso que um filme sobre Madame Satã tenha sido realizado por um diretor cearense, que nunca viveu no Rio.

Para tentar entender esta cultura que se diz brasileira passava pela compreensão do que era a cultura carioca. Nasci no Ceará, filho de mãe cearense e pai argelino, comecei a vir ao Rio desde os 12 anos, por curtas temporadas. Foi um lugar que sempre me intrigou. Queria entender porque a cultura carioca era considerada a cultura hegemônica, incluindo o sotaque carioca. Comecei a me dar conta de que no Rio acontecia uma apropriação antropológica cultural que é muito brasileira e também latino-americana. O Rio dos anos 30 se destacava como uma cidade portuária, na qual conviviam estrangeiros e migrantes de várias partes do país e do mundo, e ainda um grande contingente de negros. Nessa cultura mutante, haveria uma urgência em criar uma voz própria em permanente transformação. Nesse sentido, a experiência de Satã me parece novamente muito significativa: ele criou para si mesmo vários personagens - Mulata do Balacochê, Jamaci, a Rainha da Floresta, Santa Rita do Coqueiral, Tubarao, Gato maracajá - e ainda juntou Cecil B. de Mille, Candomblé, Josephine Baker e mitologia chinesa. Ao fazer esta bricolagem emblemática, ele criou um personagem original, mesmo que carnavalizado e esdrúxulo, mas com voz própria.

Como você se preparou para o filme?

Eu escrevi a primeira versão do roteiro sem nunca ter ido à Lapa. Quando cheguei ao Rio, me senti ao mesmo tempo a pessoa mais adequada e a menos adequada para fazer esse filme. Fiz um mapa de onde ele morou, fui procurar as casas, algumas existiam, outras não. Tudo isso tinha um grande frescor. A escolha do elenco levou de seis meses a um ano, a preparação três meses de ensaios intensivos. Mas não eram ensaios de texto, eu não queria impor um método, e sim transmitir a intimidade de Satã, Laurita e Tabu na tela. Sugeri que fossem à praia, saíssem, conversassem, se conhecessem, porque esta intimidade imprime, impregna na tela. Como era meu primeiro longa, eu tinha a ilusão de que teria controle sobre tudo. Fiz um minucioso storyboard, e aconteceu uma coisa engraçada: no primeiro dia de filmagem não achei o storyboard - e filmei assim mesmo. No segundo dia, segui o storyboard e as seqüências não estão no filme. A partir do terceiro dia, não usei mais o storyboard.


Fale sobre a direção de arte e a fotografia, basicamente feita com a câmera na mão.

O filme foi quase todo rodado em locação. Locações têm cheiro, história, vida, eu queria transmitir esse lado fétido, mofado, difícil de se obter em estúdio. Realizamos um trabalho muito integrado com o diretor de arte Marcos Pedroso e com o diretor de fotografia Walter Carvalho. Percebi que para filmar um personagem tão livre, eu teria que tentar traduzir essa liberdade na forma de filmar. Era uma questão de coerência. Pensei em fazer o filme em 16mm, o que não foi possível por contrato. Então partimos para o 35mm, mas tentando preservar a leveza do 16mm. Filmamos com uma Aaton. Mexemos no negativo, o que permitiu uma textura mais próxima do 16 mm. Isso nos possibilitou uma imagem contrastada, sem meios tons, assim como o personagem.



como foi a escolha de Lázaro Ramos para o papel de Madame Satã?

Era uma questão de tudo ou nada. Afinal de contas o personagem está em 99% das cenas. De uma certa maneira, o filme é o personagem. Eu queria um ator completamente intuitivo. Ao mesmo tempo, queria alguém muito teatral. Eu precisava de alguém que conciliasse esses dois opostos. O Lázaro é muito talentoso e tem uma visceralidade física, fundamental para o personagem. Ele trouxe uma interpretação naturalista, e conseguiu também reproduzir os personagens que Satã inventou. Além disso, ele foi de uma disponibilidade total e aceitou embarcar nessa aventura correndo todos os riscos. Não havia fórmula - tem hora que ele interpreta, tem hora que ele não interpreta. Tem hora que ele sente, tem hora que ele não sente. Fomos descobrindo e inventando juntos.

Um ponto muito forte no filme é a presença do corpo de João Francisco.


O corpo dele é a sua fortaleza, é a única coisa, objetivamente, que ele tem. Por isso, tudo que ele cria é a partir do corpo, a partir da voz, como se veste, como se movimenta - a partir de como expõe, como esconde o corpo. Durante muito tempo, devido à exclusão social, as manifestações culturais do negro só podiam vir através do corpo ou, eventualmente, da culinária. Por isso, a maneira mais objetiva de resistência do personagem é através do seu corpo. Para mim, a paisagem do filme é a paisagem deste corpo, e por isso eu e Walter Carvalho decidimos trabalhar o negativo de uma determinada maneira para que a textura da pele, a presença do corpo fossem absolutamente definidores do personagem. Seu corpo era sua única forma de expressão.

E quanto a escolha da Marcélia Cartaxo e Flavio Bauraqui ?

Sou apaixonado por A Hora da Estrela e sempre sonhei em trabalhar com a Marcélia. Escrevi o papel para ela, mas mesmo assim fiz testes com muitas atrizes só para confirmar a minha intuição. Para mim, descobrir o elenco foi uma aventura. Eu queria reproduzir a mistura de origens e sotaques que viviam no Rio naquela época e também obter diferentes registros de interpretação. Era importante que eu tivesse uma Marcélia, extremamente intuitiva, uma Renata Sorrah que fez um filme com Bressane há 30 anos e tinha um frescor de cinema, um ator experiente como Emiliano Queiróz, que conhecia aquele universo através de peças Plínio Marcos. Lázaro é baiano, Marcélia é da Paraíba, Flavio é gaúcho, Fellipe Marques é carioca, Emiliano Queiroz é cearense, Ricardo Blat é paulista.

O filme termina com a celebração do personagem. Fale sobre esta decisão.


O final é uma transcrição quase exata de como ele venceu o concurso de fantasias do Bloco dos Caçadores de Veados de 1942, depois de passar dez anos na prisão. Assim como Madame Satã inventava muitas coisas, também se inventou muito sobre ele. Sabe-se, ao certo, que ele matou um homem e há dúvidas se teria matado o compositor Geraldo Pereira, que tem três atestados de óbitos. Por atentado ao pudor, roubo, lenocínio, prostituição, e outros delitos, ele cumpriu 27 anos de prisão. Como diretor, não me interessa julgar os personagens. Eu seria hipócrita se dissesse que o filme não tem uma moral, mas a moral não é sobre o personagem e sim sobre uma experiência. Para mim, o traço principal desse personagem é que ele nunca se vitimizou, se reinventou sempre, ressurgindo das cinzas de forma gloriosa, um testemunho de amor à vida. O filme celebra esta experiência de resistência.
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