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Colocada: Sex Nov 05, 2004 20:58 Assunto: U2 - Público...'Y' (Q)ue Público |
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Público...'Y' (Q)ue Público
O jornal Público de hoje dedicou o artigo principal do suplemento Y aos U2.
Para os que têm acompanhado as referências à banda nas últimas revistas editadas...este artigo é familiar.
'Os 4 cavaleiros depois do Apocalipse'...é este o título do artígo, tradução da revista Q recentemente editada.
O Y traz também mais um review de HTDAAB.
Por Vitor Belanciano:
"Há 25 anos, ao lado dos Echo & The Bunnymen ou Teardrop Explodes,
representavam o que de mais relevante a música britânica nascida no
pós-punk tinha para oferecer. Tocavam em pequenos clubes e eram alvo
de culto para um público reduzido mas dedicado.
No início dos anos 80 lançaram "Boy" e "October", dois álbuns de rock
saudável e ágil, a que seguiram "War" ou "The Unforgettable Fire",
discos de contornos mais épicos, que já não convenceram os fãs da
primeira hora. O divórcio consumar-se-ia com a mega-operação "Live
Aid", em 1985.
A partir daí os dias dos U2 como banda de culto terminaram. Seguiu-se
a ascenção até ao topo ("The Joshua Tree" e "The Rattle And Hum") e
digressões que chamaram a atenção do mundo.
Nos 90's o ciclo iniciado nos 80's sofreria nova inflexão. Passada a
fase de afirmação global, os quatro irlandeses davam sinais de não
saber o que fazer a seguir. As saídas encontradas revelaram-se, no
entanto, certeiras. Depois de terem subido ao panteão dos eleitos da
indústria do entretenimento, resolviam ironizar com ela e consigo
próprios ("Achtung Baby" ou "Zooropa"), ao mesmo tempo que se faziam
rodear de colaboradores, como Howie B, capazes de insuflar vitalidade
ao projecto e apontar-lhe outros caminhos, como no sintético "Pop".
Em 2000, "All That You Can't Leave Behind" parecia indiciar novo
período. Depois da ironia pop dos últimos discos, regressava-se ao
prazer simples do rock, como se depois de terem glosado os mecanismos
da cultura do entretenimento tivessem sentido, outra vez, vontade de
acreditar nela. "How To Dismantle An Atomic Bomb" segue a mesma via,
mas de forma mais confiante e sem os tiques do seu antecessor. É o
disco onde os U2 voltam a ser os U2, sem ironias.
É o disco de um grupo de quatro músicos que olha para trás e percebe
que aquilo que sabe fazer melhor são canções concisas de rock,
eficazes e directas. É, como diz Bono, a aplicação da regra de
William Burroughs: revolver no passado, olhar à volta para o presente
e tentar perspectivar o futuro. Ou seja, é mais um exemplo de como
refazer a casa no instante em que ela parecia ruir.
Não é um disco ousado - nem era isso que se esperava -, mas é o álbum
de uma banda que continua a saber gerir a carreira como poucas. No
primeiro escalão do rock, onde se inserem, como nenhuma outra. Ao
longo dos anos geraram anti-corpos e deram passos infelizes, mas
souberam viver com essas cicatrizes, aceitando de forma natural que é
o preço a pagar por quem deseja a comunicação universal. Mesmo assim,
as grelhas de leitura da sua música nem sempre são óbvias.
Exemplos? "How To Dismantle An Atomic Bomb", o título do novo disco,
tem suscitado diversas interpretações. Diz-se que é a extensão
simbólica de algumas das letras mais politizadas do grupo, mas também
que é uma alusão ao abalo sentido por Bono depois da morte do pai. Os
próprios promovem a ambiguidade, perguntando a quem os quer
ouvir "como se desactiva uma bomba atómica?". Ninguém tem resposta, a
não ser Bono: "Amor. Com muito amor".
Nos U2, o que parece individual transforma-se em universal, o
concreto em abstracto, e as letras continuam a ser alegorias
impenetráveis, passíveis de diversas interpretações, que no entanto
toda a gente canta em uníssono. Mas este é o álbum da guitarra de The
Edge, ou não fosse este também o disco lançado no contexto do
renovado interesse do rock. O tema de abertura, "Vertigo", podia ter
sido criado pelos The Strokes ou pelos U2 no princípio dos 80's, com
gritos retemperadores de "yeah yeah yeah" no final e uma guitarra
pungente. O mesmo se poderia dizer de "Love and peace or else", com o
ruído da guitarra no limite, numa faixa de rock puro e duro, ou
em "Crumbs from your table" e "City of blinding lights", com os
efeitos típicos dos pedais da guitarra em evidência. "Miracle drug",
apesar das suspensões ambientais, promete um regresso aos tempos
de "Boy" e "October", com Bono a cantar "i want to trip inside your
head, spend the day there, hear the things you haven't said".
Em "Sometimes you can't make it on your own" os contornos épicos e a
tensão dramática diluem-se no falsete de Bono que canta para o
pai: "it's you when i look into the mirror". Em "A man and a woman",
a guitarra acústica e o vibrante baixo diluem-se num som flutuante,
naquela que é uma das faixas mais óbvias do disco. Mas também há
espaço para baladas como "One step closer" ou temas mais lentos que
promovem desenvolvimentos melódicos em crescendo, como "One step
closer".
Mas a nota dominante são as canções incisivas e dinâmicas, as letras
metafóricas de Bono, o arsenal de soluções de The Edge e um tipo de
produção que parece fazer eco dos primeiros anos dos quatro de
Dublin. Não é uma bomba de rock. É espírito rock dos primórdios em
simbiose com um olhar terno sobre o presente (The Strokes, White
Stripes, The Kills, etc.), embalado pelas soluções melódicas mais
recentes, com efeitos semi-electrónicos à mistura. Será, quanto
muito, uma consistente história de bombamor."
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