bushnypt Equipa Esposendeonline.com


Idade:22 Registo: 27-Nov-2003 Mensagens: 25603 Local/Origem: Esposende
|
Colocada: Sex Out 08, 2004 14:00 Assunto: Collateral - Quando nem se sabe copiar... |
|
|
Collateral - Quando nem se sabe copiar...
Quando Michael Mann decidiu fazer Collateral deve-lhe ter passado pela cabeça imitar o modelo tão bem ensaiado por Antoine Fuqua em Training Day. Ou isso, ou então o realizador de filmes como The Insider ou Heat espalhou-se ao comprido com este filme. Isso porque Collateral nem chega a ser uma cópia de Training Day. Com um Cruise inexistente, Collateral não consegue ser nada...
As semelhanças com Training Day são por demais evidentes. Um carro, dois passageiros. Uma introdução ao mundo da personagem secundária, uma entrade de rompante do actor principal. As ruas de Los Angeles. Uma arma. Sangue e cadaveres no chão. E ponto final!
Todas as semelhanças com o espantoso filme de Antoine Fuqua, que apenas está atrás de LA Confidential (outro filme da Cidade dos Anjos) como o melhor thriller de acção dos últimos 20 anos, terminam aí. Não que Michael Mann não quisesse que elas continuassem. Acredito que o seu objectivo era esse. Mudar as profissões, mudar a hora do dia (Training Day começa com o nascer do sol e acaba por o mesmo nascer do sol enquanto que Collateral passa-se apenas de noite) mas manter a mesma dinâmica. Só que para isso Mann precisava de ser um bom copião, ou então dava-lhe jeito uma resma de folhas de papel vegetal. Como copiou a olho nu desviou-se demasiado do que queria. O resultado? O filme sem sentido, com personagens sem sentido, com um argumento sem sentido e com uma total falta de vida e de dinâmica que até se torna estarrecedor, sabendo nós que estão envolvidos grandes nomes nesta produção.
Que se pode dizer de um filme que tenta ser frenético e relaxado ao mesmo tempo? Ou então de um filme que tenta sobreviver à custa de duas personagens mal definidas e a quem o tempo em cena dado é escasso. O filme, se tivesse sido uma especie de Who´s Affraid Virginia Wolf num taxi seria um sucesso estrondoso. Havia todos os ingredientes necessários para ter sucesso: um show de interpretação, uma boa paisagem e um ambiente de chill out externo ao taxi que, por contraposto, seria um vulcão em erupção. Se a ideia de Mann era ter acção, mais representação, podia sempre despachar as primeiras vitimas em pouco tempo e depois dar espaço a um diálogo mais profundo entre Foxx e Cruise, meter Jada Pinkett Smith ao barulho, e aprofundar a perseguição final e o confronto psicológico entre os personagens. Havia duas vias a seguir, cada qual aceitável à sua medida. Então porque é que Mann escolheu a terceira via, a via errada? Só Deus saberá. Aliás só Deus saberá o porquê da presença inconJada sequente da policia em cena, da personagem de Mark Ruffalo, a cujo o destaque que é dado não corresponde minimamente à sua importância em cena, ou então o que dizer das cenas de acção. É que tirando o tiroteio na discoteca Fever, mais apalhaçado que propriamente bem feito, não há cenas de acção no filme. Quase não ouvimos
tiros e para ter-mos um duelo, digno de filmes de acção, é preciso esperar pelos últimos instantes, e mesmo aí sai-mos defraudados. Enfim Collateral falha a toda a linha. Muito por culpa de Michael Mann que nunca soube escolher uma direcção ao filme deixando-o andar às voltas para ver no que dava, mas também por culpa de Tom Cruise. É que há actores que salvam um filme, há os que aguentam um filme e há os que passam pelo filme sem se notarem que esles estiveram lá. E é aí, estranhamente, onde fica o senhor Tom.
Em 1996 Tom Cruise fez Jerry Maguire. Foi um desempenho notável e merecedor do óscar. Cruise tinha 15 anos de carreira e já alguns excelentes desempenhos na mão. Só que acabou por ser o desconhecido Geoffrey Rush a sair vencedor. E parece que a partir daqui Cruise se perdeu por completo. Entre Missões Impossíveis (se bem que o primeiro filme ainda pode ser considerado de interessante), Eyes Wide Shut, Minority Report e coisas do genero, o actor foi-se desdobrando em diferentes papeis, todos eles com a capacidade de aumentar a sua conta bancária mas todos eles incapazes de o fazer progredir como actor. E ao contrário de muitos actores em grande estilo, Cruise não provou ter evoluido na arte de representar. Pelo contrário, há uma regressão quase confrangedora. E isso é claro como a água em Collateral. O filme, que supostamente serviria, entre outra coisas, como veículo de Cruise para o óscar, não tem Cruise. Não tem porque entre estar ele e outro actor qualquer em cena a diferença é nenhuma! Cruise é um espelho autêntico. É o que projecta. Nem sequer se pode dizer que é uma interpretaçõ segura, calma, tranquila, cool. Não, nem isso porque não é isso que se vê. Durante o filme só há lugares comuns, frases feitas, movimentos de corpo quase patéticos e uma personagem sem cabeça, tronco e membros. Assim não será agora nem nunca que o actor norte-americano mais poderoso de Hollywood conseguirá subir ao palco do Kodak Theather. Pelo menos pelo seu próprio mérito.
Já Jamie Foxx é o oposto. O filme é dele, do principio ao fim. Foxx é divertido sem exagerar. É sarcástico, irónico, capaz e resoluto. Enfim, a sua personagem tem caracter, personalidade, tudo aquilo que falta à de Cruise. As melhores cenas do filme são suas. Primeiro, o arranque promissor do filme deve-se essencialmente à quimica existente entre Foxx e Jada Pinkett Smith (quando é que em Hollywood vão deixar o racismo para o lado. É que já incomoda ver que um actor negro só pode engatar uma actriz se ela for negra ou hispânica), depois a cena em que o próprio encarna Vincent e por fim o momento da revolta ao voltante do taxi amarelo. De facto é ele quem puxa por Cruise quando, na teoria, deveria ser o contrário. Foxx, que começou como humorista truculento, é hoje um actor cada vez mais levado a sério. Não só o seu desempenho aqui, neste filme, é digno de ficar recordado como dos mais interessantes a nível secundário do ano, como a sua interpretação como Ray Charles no filme Ray já foi tantas vezes louvada que há muitos apostadores que garantem uma nomeação ao óscar. Algo improvável mas que, a acontecer, era a evolução natural de um dos bons nomes da interpretação norte-americana.
Ninguém pensaria que Collateral fosse um filme tão fraco. A matéria prima era boa e o elenco prometia. Havia de tudo para que o projecto singrasse. Só que no final tudo falhou. A pergunta não é bem porquê, já que isso parece estar bem explicado nos parágrafos em cima. A verdadeira pergunta é qual a razão dos estúdios continuarem a financiar filmes deste género. Quando se falam em problemas monetários dos estúdios a primeira coisa que me vem à cabeça são os Collaterals deste mundo. É que há filmes que têm apenas um propósito claro: fazer dinheiro. Mas filmes como este, que, debaixo da mesa querem ganhar dinheiro mas por cima querem parecer mais respeitaveis, mais honestos e de maior qualidade do que na realidade são, só dão prejuizo. Primeiro porque os gastos de produção são superiores aos lucros do box-office. E depois porque não deixam uma impressão positiva, de forma a mais tarde poderem ser recuperados. Talvez se as produtoras começassem a controlar mais estes genero de filmes o mercado fosse mais honesto e transparante. Caso contrário, vamos ter de continuar a aturar filmes como Collateral durante muitos e longos anos. Infelizmente...
O MELHOR - Jamie Foxx. Uma boa surpresa este actor que começou no mundo da comédia e que está a ter um ano em grande. É verdade que a sua personagem é a única que é minimamente trabalhada no filme, mas é-o também graças ao esforço e talento de Foxx, que consegue em várias cenas, ser o dono e senhor do filme. Fica a expectativa à volta de Ray, o filme que pode confirmar ou desconfirmar estas afirmações.
O PIOR - Tom Cruise. Que nulidade autêntica como actor. Não há uma expressão, um rasgo, um movimento que ameace torná-lo maior do que aparenta ser. O olhar não tem profundidade, os movimentos são demasiado forçadas e o fato e o cabelo grisalho não produzem o efeito necessário.
CURIOSIDADE - Para quem não tenha reparado dois dos actores com grandes chances de chegar à cerimónia dos óscares passam por Collateral de forma quase despercebida. Primeiro vemos Irma P. Hall, a actriz de Ladykillers e grande premiada em Cannes, a fazer de Ida, a mãe da personagem de Foxx. E depois temos Javier Bardem, coroado em Veneza, como Félix, o traficante colombiano, com quem Foxx se encontra para recuperar os dados perdidos.
Site Oficial - www.collateral-themovie.com
Realizador: Michael Mann
Elenco: Tom Cruise, Jamie Foxx, Jada Pinket Smith, Mark Rufallo, ...
Produtora: Dreamworks
Classificação: m/12
Duração: 118 minutos |
|