Tradição - Todos querem afastar o Mal
Data: Sábado, 23 de Agosto de 2003 @ 11:51:18 GMT
Tópico: S. Bartolomeu Mar


A Igreja Católica assinala este fim-de-semana a festa em honra de S. Bartolomeu, um apóstolo que as populações cristãs se habituaram a adorar devido à sua luta contra o Diabo. O receio das influências demoníacas na acção humana incentiva mesmo os crentes a respeitar a realização de uma série de ritos, através dos quais acredita poder exorcizar a figura que personifica o mal.

Há quem leve as crianças ao banho santo para afastar o demónio
Há quem leve as crianças ao banho santo em águas gélidas ou coma ovos e carne de galinha preta, assim como quem evite andar de costas ou passar debaixo de escadas. Para exorcizar o mal usam-se também expressões latinas como 'vade retro' ou 'abrenuntio', reza-se o Pai-Nosso de cruz ou usa-se o próprio sinal da Cruz. A procura dos serviços das bruxas deve-se igualmente ao medo e necessidade de combater os receios por males que se acredita serem provocados por acção do Diabo.

O Arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga, diz que se trata de manifestações resultantes da "piedade popular não devidamente fundamentada" e que perdura graças à "ingenuidade" própria das populações e à ignorância sobre a verdade teológica. "O Diabo existe, que ninguém tenha ilusão do contrário, mas as pessoas não deveriam ter medo dele, apenas respeito e preocupação num estilo de vida honesto, transparente e autenticamente cristão", sustentou o prelado.

No entanto, o sociólogo Moisés Espírito Santo garante que os ritos anti-satânicos e de exorcismo têm uma base religiosa e até faziam parte da Liturgia Católica até aos anos 60, além de terem sido usados recentemente pelo Papa. Por outro lado, em seu entender, o medo do Diabo não é um sentimento exclusivamente religioso ou de crentes, generalizando o tipo de pessoas envolvidas em ritos ora mais ora menos públicos.

"São actos de pessoas que, sejam crentes ou não, visam sempre exorcizar o Diabo e o mal que a figura representa", afirma o sociólogo, defendendo que, de uma forma geral, as pessoas têm medo do Diabo ou de certos comportamentos humanos influenciados por uma figura de cuja existência a Igreja não duvida e que é comum às mais diferentes religiões – seja Muçulmana, Judaica ou outra. Frisa mesmo que "até os não-crentes acreditam em poderes extra ou super-humanos ligados ao mal, como o mau-olhado ou os fei-tiços".

Em seu entender, os ritos anti-Satanás produzem muitas vezes efeitos concretos e eficazes, apontando como exemplo as tradições das festas de S. Bartolomeu do Mar, em Esposende, onde as crianças são banhadas no Atlântico e cumprem determinadas 'regras' que eliminam determinados problemas.

"São vários os casos de crianças que, graças ao chamado 'Banho Santo', perdem medos, como sejam traumas nocturnos, a gaguez, a timidez ou até o raquitismo, que muitas vezes resulta do medo psicológico das crianças em enfrentar a vida", atesta Moisés Espírito Santo, sublinhando que são "teorias populares fundamentadas e que têm a sua eficácia".

Embora reconheça que as manifestações anti-satânicas se verifiquem mais no Norte, o sociólogo defende que o medo do Diabo está longe de ser um fenómeno exclusivo de uma região ou de uma determinada crença.

"No Sul, assiste-se a uma menor tradição nos ritos de exorcismo, não porque as pessoas não acreditem no Diabo ou não tenham medo dele, mas apenas porque no Norte as tradicionais manifestações públicas têm maior tendência a perdurar por haver mais multidões religiosas", refere Moisés Espírito Santo, lembrando os rituais de S. Bartolomeu de Messines, no Alentejo, onde se exorcizavam até ovelhas.

O sociólogo reforça ainda que "as pessoas que acreditam em Deus, também crêem no oposto, mas não é preciso ser crente para se ter receio do Diabo, como comprovam as idas às bruxas ou o medo de feitiços e influências malévolas".

O presidente da Câmara da Ponte da Barca, Cabral de Oliveira, recorda que há cerca de 40 anos, também em tempo de crise, o responsável do município decidiu que não havia festas, mas o povo acabou por, de forma espontânea, sair em multidão para a rua para assegurar que os ritos da festa contra o Diabo se cumprissem.

Fonte: Correio da Manhã





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